O Ideal Europeu

A Europa como a conhecemos hoje não é a mesma de há um século atrás. As práticas e os costumes do nova era têm vindo a diluir e a transformar a identidade originária do velho continente. Pode-se mesmo afirmar uma aculturação nessa perda identitária pela emanação massificada de princípios do Novo Mundo, a América do Norte.

Num momento agonizante, a liberdade, diferença e cultura comum integrantes do «projeto europeu» precisam urgentemente de ser reabilitadas. O ideal de civilização europeia pode desvanecer se não atendermos à nobreza de espírito, isto é, “Às artes, às humanidades, à filosofia e à teologia que existem para enobrecer o espírito, para permitir à humanidade descobrir e reivindicar a posse da sua forma mais elevada de dignidade.” (Steiner, 2006, p.15) A herança cultural e respeito pelo código moral intelectual têm uma importância vital para a qualidade da vida humana. A cultura é, de facto, um convite para o cultivo da nobreza de espírito, mas, mais do que isso, é um fator indispensável para a preservação de um ideal de civilização. “A Ideia de Europa” de George Steiner, proferida na décima palestra do Nexus Institute, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004, debruça-se sobre estas questões.

Steiner traça a sua argumentação em cinco princípios que considera serem as realidades que configuram a identidade europeia.Resultado de imagem para bandeira da europa

Começa por afirmar que “A Europa é feita de cafetarias, de cafés“, verdadeiros espaços de socialização, conspiração e debates intelectuais com peso literário que exaltam a cultura e a memória enquanto legado histórico. Frequentados por poetas, políticos, filósofos e artistas, um café na europa continental é diferente de um pub inglês ou de um bar americano. “Enquanto existirem cafetarias, a «ideia de Europa» terá conteúdo” (Steiner, 2006, p.28). A paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia traduz a ideia de que “Europa foi e é percorrida a pé“, metaforicamente identifica-se um padrão histórico-cultural de pertença em todo o continente. Também as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado evidenciam a importância de personalidades do passado carregadas de história:  “Ler as respectivas placas toponímicas é folhear um passado presente.” (Steiner, 2006, p.33).

A herança dupla de Atenas e Jerusalém denota que “Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (Steiner, 2006, p.36). Herança essa concretizada na música, na matemática e no pensamento especulativo. Todo o desenvolvimento de ideias que foi possível na Europa tem a sua raiz nestas duas cidades, e daqui partiu para o mundo. A filosofia, o vocabulário (Antenas), mas também a matriz bíblica, pintam a traço grosso a ideia de Europa. Desta forma, a «ideia de Europa» é, na verdade, um «conto de duas cidades».

Por último, o quinto princípio é uma consciência própria escatológica, isto é, a ideia pré-concebida de que a Europa terá um fim, “é como se (…) tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História” (Steiner, 2006, p.43).

Cabe a cada um de nós, europeus de qualquer país, pensar, compreender e defender este legado. O génio está na diversidade linguística, cultural e social, por isso não nos deixemos devorar pela homogeneização da imagem anglo-americana que ergue a cultura do populismo e o mercado de massas. É imperativo agitar as consciências críticas dos cidadãos europeus e alertá-los para estas causas.

Este ensaio – “A Ideia de Europa” – é do meu ponto de vista uma reflexão de uma enorme clareza relativamente à história da Europa. Convém assinalar que apesar das múltiplas diversidades culturais, religiosas existentes na Europa existem traços e determinado tipo de características que traduzem valores e uma civilização que tem uma identidade cultural particularmente rica. Capaz de gerar um conjunto de fatores que contribuíram, desde sempre, para a humanização do mundo e que constituem, igualmente, uma etapa fundamental para a Democracia. Se não vejamos, a civilização Greco-latina trouxe ao mundo a ideia da razão e os primeiros passos decisivos para aquilo que hoje chamamos democracia.

O cristianismo constituiu também uma religião determinante naquilo que designamos por humanização. Deve-se a esta religião o combate à barbárie, à injustiça e na procura incessante dos valores que personificam a ética e a moral.

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A “Ideia de Europa” não se trata de um sentimento xenófobo no sentido de afirmar que a Europa é superior ou inferior ao continente americano, mas vincar bem que há um imaginário coletivo ligado fortemente a uma ideologia da liberdade que nasceu na Grécia e que constituiu como que um farol que a Europa teve sempre como referência fundamental por oposição a outras civilizações.

Nesta perspetiva, o que Steiner nos traduz neste ensaio é fundamentalmente afirmar que não basta evocar este humanismo europeu, não basta este sentimento de orgulho relativamente à cultura europeia. É fundamental que a Europa não fique colada a esta visão passadista e que saiba a partir do seu passado e do seu presente reinventar-se e dar respostas culturais, económicas e sociais aos desafios contemporâneos.

Esta unidade assente na diversidade constituiu, desde sempre, uma vantagem inequívoca na dinâmica da própria História. Partindo deste princípio é, cada vez mais importante, refletir de uma forma crítica a própria imagem da construção daquilo que chamamos identidade europeia.

Basta estarmos minimamente atentos, do ponto de vista da informação, para percebemos as múltiplas fragilidades da Europa face ao mundo. Cito apenas alguns exemplos: não haver uma política militar comum, são sempre os EUA que protagonizam as grandes mudanças geoestratégicas do ponto vista militar e ideológico; o enfraquecimento sucessivo da União Europeia; a saída da “velha” Inglaterra constitui, na minha opinião, uma séria ameaça, à imagem da construção de uma Europa unida nos mais diversos pontos de vista; o aparecimento de novas potências económicas emergentes que reduzem a Europa a uma situação de fraqueza permanente, como a China e a Índia.

É neste xadrez altamente complexo que a Europa se encontra a definhar e não basta evocar a filosofia grega ou o cristianismo para fazer com que num passo mágico a Europa voltasse a ser o centro do mundo.

É tempo de a Europa se olhar ao espelho e refletir todo este somatório de vulnerabilidades.

Fica uma certeza, conhecer o passado é compreender o presente e ter a possibilidade de projetar o futuro. A Europa tem muito passado, saibamos dar-lhe futuro.

Steiner, G., 2006. A Ideia de Europa. 3ª Ed. Lisboa: Gradiva
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