Repensar a Empresa: Uma Abordagem para a Cidadania

O que define o nosso tempo é, sem dúvida, o progresso da ciência e da tecnologia. O conhecimento científico e as tecnologias nos produtos e serviços tornam-se cada vez mais numa expressão significativa do poder do conhecimento por detrás das estratégicas económicas empresariais. Antes de mais, a Empresa é o mediador principal entre a ciência e a sociedade. Mas conseguirá esta ser um agente de cidadania?

Imbuída do fator economia e de criatividade técnica, acredita-se que a missão de uma empresa é servir o bem comum através de virtudes do mercado. Contudo, esta missão parece ser apenas uma utopia quando, na realidade, a rentabilidade e competitividade se revelam preponderantes na atividade empresarial. De facto, é evidente a falta de regulamentação e o défice de governação com o fenómeno da globalização no tecido empresarial. Apesar de todas as facilidades e contributos que acerreta, Phiippe de Woot vinca a sua crítica à sociedade neo-liberal na obra Rethinking The Entrepise, alegando a urgente adoção de um modelo sócio-ambiental de moldes sustentáveis.

Estamos numa sociedade de alto-risco que força a questionar-nos de como tomar mais responsabilidade para engendrar novos modos de cooperação e governo” (Woot, 2014, p. 5). Os desafios do século XXI são imensos, podendo destacar alguns: a implementação de um modelo mais sustentável, a manutenção da abertura dos mercados e sociedades e a transformação do dinamismo empresarial ao serviço do bem comum.Resultado de imagem para entreprise

A empresa é o principal agente do sistema económico. A criatividade e a inovação são necessárias para responder aos desafios sociais. A autoridade pública, as forças sociais e a sociedade civil são expetáveis de contribuir para esta transformação. O modelo de negócio é uma economia de mercado competitiva, no qual o mercado organiza o comércio. A competição nota-se na melhor empresa que vence e que oferece aos clientes e consumidores um rácio constante de qualidade/preço. A inovação é o coração da competição efetiva, na qual a tecnologia se revela uma arma decisiva na substituição do antigo pelo novo.

O desenvolvimento económico depende, para além da inovação, de empreendedores com qualidades específicas, tais como: a visão de um possível progresso, energia e algum risco, para implementar poder de convicção que leva à tona de água os recursos e o suporte necessário. Por vezes, empreendedores coletivos, quando cooperam, podem ser mais eficientes, as denominadas corporações. Estas não só evocam as individualidades criativas que as fundaram, mas também as empresas que desenvolveram as qualidades da mesma visão e que aceleraram a criação de produtos, serviços ou processos.

Guiadas pela competição e mudança tecnológica, uma empresa de sucesso não só produz ou distribui bens e serviços, como os renova constantemente e cria outros novos. São negócios sustentados sempre no propósito de legitimação, daí os conceitos de inovação e criatividade se assumirem essenciais para os seus intentos.

As empresas são poderosas entidades que controlam a ciência, tecnologia, finanças, relações sociais, informação e comunicação. Contudo, nota-se a nível global um vazio político, uma lacuna no desenvolvimento de estratégias e no debate democrático sobre os desafios sociais da globalização. De facto, não existe democracia sem o balanço da coexistência de um Estado forte.

A ação económica passa também pelo vazio ético. Este é um sistema imoral, no qual o modelo neoliberal globalizado defende que podemos fazer imenso dinheiro ao sermos irresponsáveis, incentivos para um mau comportamento.

Algumas empresas “reivindicam que as responsabilidades sociais (CSR) vão influenciar as suas decisões e comportamento apenas para alegar que podem encontrar um benefício ou uma restrição legal” (Woot, 2014, p. 21).

O esbatimento da dimensão ética e política demonstra que é apenas o desejo tirânico pelo lucro que move as empresas. A mudança pelo proveito económico é mais rápida do que a mudança em termos políticos e sociais.Resultado de imagem para entreprise

Existe relação entre o fenómeno da globalização e a ascensão de desigualdades? Sim. Um dos maiores desafios que enfrentamos é a reconciliação do dinamismo do mercado económico com a justiça social. Existem ainda muitas formas de discriminação nos negócios, que afetam maioritariamente os imigrantes e as mulheres. Acresce-se o desemprego flagrante, a insegurança e a exclusão. Assim, entende-se que a dimensão política é fulcral para a transformação deste modelo, de modo a assegurar um desenvolvimento mais justo e sustentável. Este panorama de instabilidade e crise social desenvolve desacreditação e afastamento político por parte dos cidadãos.

O domínio financeiro assegura a estabilidade dos governos, assumindo-se como um princípio que guia o crescimento e o desenvolvimento de estratégias no seio empresarial. Esta lógica sustenta-se na especulação, na compra e venda de expetativas. Onde o dinheiro é usado para criar mais dinheiro sem qualquer investimento na produção de bens ou serviços úteis para as pessoas. Emergem comportamentos ilegais e excessivos, suportados pela manipulação e desvio de dinheiros. A primazia dos mercados financeiros assume-se como um problema político.

É uma utopia querer renovar o sistema económico pois alguns intervenientes chave estão carregadores de conspiração e fraudes. A rápida mudança, a dominação financeira, alguns comportamentos inadequados criaram uma sociedade mais rica, não há dúvida, mas também criaram uma incapacidade política na resolução de problemas, insegurança cultural, irresponsabilidade coletiva e carência nas dimensões ética e política.

A globalização do modelo de negócios e a aceleração das tecnociências trouxe-nos muitas oportunidades e  muitas ameaças. Os desafios que enfrentamos estão a crescer, tornando imperativo a urgente necessidade de uma mudança radical. A chave para começá-la está em envolver o maior número possível de stakeholders políticos, económicos e sociais numa abordagem multifacetada, tomando atenção à responsabilidade cultural.Resultado de imagem para cidadania

Neste sentido, compreende-se que uma empresa serve um interesse público que transcende a sua própria existência. O sucesso de uma empresa depende da sua capacidade de adaptação e transformação, aliada ao dinamismo e criatividade. Ser um empreendedor significa mudar a ordem existente.

A ambiguidade das inovações tecnológicas criou na mente pública a descrença e o medo num possível progresso” (Woot, 2014, p. 55). Os líderes colocam na linha da frente a prosperidade sem crescimento, preocupações com o ambiente, solidariedade ou bem-estar social.

O propósito da empresa deve basear-se na criação de progresso económico e social de uma forma sustentável e globalmente responsável. A convergência entre o crescimento económico e o bem comum e dos empreendedores, individuais ou coletivos, tornam-se responsáveis pelo significado das suas ações. Deixa-se para trás um crescimento puramente lógico-financeiro e implementa-se um modelo mais humano, sustentado pela dignidade humana e pelo bem comum. Em que os significados se sobrepõem aos objetivos. Só assim se conseguirá um progresso na humanidade.

Que tipo de mundo queremos construir juntos com os inúmeros recursos e as imensas capacidades que temos ao nosso dispor? As Nações Unidas propuseram o conceito de desenvolvimento sustentável. Este novo modelo visa um projeto para o futuro destinado a transformar a ação económica num contexto global de bem comum. As empresas tomam parte do debate sobre esta questão, visando modificar o sistema que controlam.

A mudança cultura leva os líderes a repensarem três das maiores funções do negócio: criatividade e inovação (empreendedorismo), organizar e dirigir uma comunidade (liderança) e servir o bem comum (estadismo). Novas vias para a inovação, cooperação e ação coletiva em função do interesse público.Resultado de imagem para cidadania empresarial

As organizações devem fomentar uma cultura de produtividade a partir de recursos naturais. O design dos produtos aliados a uma indústria ecológica prevê a teoria dos três R’s (Reciclar, Recuperar e Reutilizar). Desta forma, preservam-se os recursos naturais. Muitas empresas estão a começar a adotar este modelo de funcionalidade económica, protegendo a pegada ecológica.

O empreendedorismo social parece ganhar terreno nas práticas empresariais apresentando-se como um serviço prioritário em defesa de causas sociais como: saúde, educação, desenvolvimento sustentável, luta contra a discriminação, direitos humanos, etc. Desta forma, as organizações tomam consciência na condução da sua atividade.

A criação de um espaço ético nas organizações “(…) promove a comunicação, transparência, confiança e diálogo” (Woot, 2014, p. 92), de forma a enfrentarem os desafios e desenvolverem soluções inovadoras.

Assim, começa o processo de transformação com agentes de progresso que exaltam as principais responsabilidades sociais e descobrem uma dimensão cívica enquadrada na vida da cidade e na participação em discussões no bem comum em direção ao nosso futuro.

Os profissionais de Relações Públicas, ao servirem o interesse público, devem ser o porta-voz destes novos processos e difundi-los para o público, de forma a que este os identifique e reconheça. A ação deste profissional na promoção de uma compreensão mútua e transformação de atitudes deve pautar-se pela ética, considerando que as pessoas são informadas, têm autonomia criativa e partilham experiências na sociedade em que estão inseridas. São os profissionais de Relações Públicas os responsáveis pela elaboração e disseminação do código ético. Deve, portanto, emergir uma imagem pública de cidadania por parte da organização.

Com a ajuda dos profissionais de Relações Públicas enquanto impulsionadores de diálogos com os stakeholders no desenvolvimento estratégico das empresas, também os CEO’s devem incitar diálogos contínuos com a sociedade e com o governo como contributo na procura do bem comum a um nível global.

Conseguirão as empresas reencontrar a sua dimensão cidadã?

WOOT, P., 2014. RETHINKING THE ENTERPRISE. 1ª ED. Inglaterra: GREENLEAF
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