Nobreza de Espírito – Um ideal esquecido

Todos nós temos formulada uma ideia de cultura e liberdade à qual acarretamos a importância de um verdadeiro símbolo de valor que deverá guiar as nossas ações. O primeiro veículo para expressá-la é a linguagem, que nos permite referenciar o mundo e falar com os outros, na busca incessante pela verdade.

O melhor Estado é aquele em que a dignidade humana é garantida para todos os cidadãos, a pessoa justa é um modelo dessa dignidade. A salvaguarda de uma civilização só é possível através da nobreza de espírito. “Nobreza de espírito é o grande ideal! É a realização da verdadeira liberdade, e não pode haver democracia, mundo livre, sem este alicerce moral. (…) a vida como arte de nos tornarmos humanos através do culto da alma humana.” (Riemen, 2011, p. 29). Distinguimo-nos dos animais por sermos seres espirituais e por conhecermos o mundo das ideias. A imagem da dignidade humana é o peso moral que dá valor ao homem. A cultura é o conhecimento e modelação dessas qualidades espirituais intangíveis, coligidas na herança cultural.

A paisagem da comunicação contemporânea está repleta de exemplos que caracterizam um universo habitado por um materialismo atávico e fortemente caracterizado por uma política de sucesso, como se o Homem, como se a condição humana estivesse reduzida a uma visão estereotipada da felicidade humana.

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Quando o autor, Rob Riemen, nos fala de Nobreza de Espírito, evoca uma perspetiva histórica de filósofos que marcaram quadros referenciais que ainda hoje deveriam ser as grandes fontes de influência da humanidade. Senão, vejamos, Platão com a sua visão associada à verdade e ao domínio do belo, duas faces da uma mesma moeda e que deveriam nortear a nossa humanidade. Um outro filósofo que marcou profundamente a nossa sociedade é Sócrates pelo simples facto de pôr em causa as verdades axiomáticas, este filósofo foi o verdadeiro paladino no combate a uma visão dogmática e às falsas verdades que sustentam e animam os pobres de espírito. Kant, mais tarde, traduziu de uma forma absolutamente rigorosa o primado da ética, aquilo que designou como os imperativos éticos. Basta ter em conta estes três exemplos e conhecer minimamente a história da filosofia ocidental para percebermos que o mundo contemporâneo caminha ao arrepio de todos estes valores. O simples visionamento de um Telejornal remete-nos diretamente para uma cultura do consumo imediato, para a demagogia e para um jornalismo sustentado num populismo que roça a mediocridade. “Numa democracia que não respeita a vida intelectual nem é guiada por ela, a demagogia tem rédea livre, e o nível da vida nacional é rebaixado ao do ignorante e do inculto.” (Riemen, 2011, p. 69).

É indiscutível que a cultura de massas é um marco civilizacional que a sociedade ocidental tem conquistado no sentido de dar uma maior igualdade e uma maior criação de oportunidades às massas. No entanto, pese o lado positivo desta caminhada histórica das democracias ocidentais existe um lado particularmente negativo relativamente aquilo que eu considero verdadeiramente um atrofiamento no que diz respeito à nobreza de espírito, isto é, a ditadura do consumo desenfreado, a superficialidade ou a cegueira do espírito, que determina, a maior parte das nossas condutas enquanto seres humanos. Não é por acaso que as religiões têm vindo progressivamente a perder uma importância capital no que toca a influenciar as nossas atitudes. Registo o facto da História das religiões, infelizmente, também estarem caracterizadas por uma visão profundamente dogmática e que em muitas circunstâncias da História constituíram-se de uma forma negativa na procura da liberdade e, consequentemente, da nobreza de espírito.

Na sociedade contemporânea, o Homem encontra-se num intervalo dramático entre valores que se gladiam em prol de um materialismo absurdo que nos deixa cada vez mais pobres. É fundamental referir, de acordo com a leitura que fiz deste ensaio, a grande síntese que gostaria de traduzir é que têm de existir valores que são fruto da História da cultura e que considero serem fundamentais para a nossa condição humana. Quanto mais estivermos privados desses valores: a cultura e a liberdade, mais pobres e solitários ficaremos. A paisagem do audiovisual, repleta de imagens, de mensagens e de arquétipos estereotipados constitui-se como que uma “embriaguez” que aparentemente nos satisfaz e nos deixe como seres passivos na construção de uma verdadeira cidadania. “(…) perder o poder e a influência pela independência intelectual (…) Por causa do poder político abandonam o mundo do espírito. (…) Uma segunda razão para a infidelidade aos valores imortais e à nobreza de espírito é a má fé.” (Riemen, 2011, p. 118 e 119).

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Tudo o que tem uma alma é bom e sobreviverá; tudo o que carece de uma alma é inútil e não pode sobreviver. A vida animada é inesquecível; a vida sem espírito merece o olvido.” (Riemen, 2011, p. 137). A riqueza não traz felicidade, devemos dedicar a nossa vida ao intelecto, ao espírito, aos valores e à cultura de forma a desenvolver a nossa alma. Um alma humana assente na liberdade que é cultivada pelas almas e que permite a estas tornarem-se modelos de dignidade humana.

O “vale tudo” para ser feliz, o “vale tudo” para ter sucesso, o “vale tudo” para sermos “virais” nos social media é uma metáfora dramática e um retrocesso civilizacional relativamente a essa caminhada em busca de uma cultura assente na dignidade humana.

Do ponto de vista de um comunicólogo, o diálogo e o debate são a única via no combate à falta de nobreza de espírito. Atualmente, esta lacuna parece acentuar-se num mundo em que a arte se transforma em entretenimento e fama de coisas ou gentes que reclamam que tudo tem de ser novo e rápido. É necessário atender aos desafios atuais e compreender que é preciso rever prioridades e assegurar o valor de um ideal perdido e esquecido no tempo, imprescindível ao progresso da Humanidade.

«Se leste todos esses livros mas não te conheces a ti próprio, o que sabes? E se és senhor de todo o saber do mundo mas não conheces as pessoas, de que és capaz?» (Riemen, 2011, p. 134).

RIEMEN, R., 2011. NOBREZA DE ESPÍRITO – UM IDEAL ESQUECIDO. 1ª ED. LISBOA: EDITORIAL BIZÂNCIO
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