Um Mundo sem Regras

Na viragem do século, o mundo e a civilização foram catapultados para um marasmo inconcebível. Assiste-se a um desmesurado desregramento do mundo num estádio já avançado e que será difícil, mas não impossível, impedir uma regressão. A Europa perdeu as suas referências. Ela interroga-se sobre a sua identidade, as suas fronteiras, as suas instituições futuras, o seu lugar no mundo, sem estar segura das respostas e não sabendo muito bem que direção tomar. A Europa, tal como todo o resto do Ocidente, e também o Oriente, entraram em estado de desvario, de desorientação, de desregramento que afeta a humanidade no seu conjunto e em cada uma das suas componentes.

Existe cada vez menos lugar para o debate livre. Tal facto, leva-me a crer que a democracia está constantemente à mercê das promessas identitárias, da afirmação fervorosa de regionalismos que teve efeitos destruidores no planeta. Temos de construir neste século uma civilização comum com a qual cada um possa identificar-se, unificada pelos mesmos valores universais, guiada por uma fé poderosa da aventura humana e enriquecida com todas as nossas diversidades culturais, ou pereceremos juntos numa barbárie comum, incapazes de fazer face aos perigos que se levantam. O mal é que o Ocidente, edificado sob os mais gloriosos valores, não cessa de perder a sua credibilidade moral. Hoje encontra-se num impasse histórico que afeta os seus comportamentos e contribui para o desregramento do mundo, onde o consumo e a destruição são as palavras de ordem. “A questão pertinente não é saber se as nossas mentalidades e os nossos comportamentos progrediram em relação aos dos nossos antepassados; mas saber se evoluíram suficientemente para permitir-nos fazer face aos gigantescos desafios do mundo atual.” (Maalouf, 2009, p. 73).

A humanidade progrediu apenas no plano material, deixando desvanecer o plano moral, base fundamental para qualquer país. O primeiro valor a que devemos atender é a Universalidade, na sua forma uma mas na sua essência diversa. Acrescentam-se a liberdade, a igualdade, a democracia, o respeito, o espírito de iniciativa, ou o estado de direito. É urgente que a evolução moral acompanhe a evolução tecnológica, o que exige dos atores sociais uma verdadeira revolução nos comportamentos que deve desenrolar-se num contexto de equidade, ou pelo menos de respeito mútuo e dignidade partilhada.

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Amin Maalouf, autor de Um Mundo sem Regras, apresenta vários acontecimentos históricos e exemplos ilustrativos que denotam a sua preocupação com aquilo a que ele denomina de “desregramento” desenfreado do mundo. Cito a exemplo os acesos conflitos do Médio Oriente, que assolam o planeta na procura de uma legitimidade patriótica que fale em nome do seu povo ou de todos os árabes, e por vezes até em nome do conjunto dos muçulmanos. “(…) a crise de legitimidade que vivem hoje os árabes, crise que contribui para o desregramento do mundo e para esta deriva para a violência descontrolada e para a regressão.” (Maalouf, 2009, p. 103).

A este quadro junta-se o colonialismo esmagador, o nacionalismo devastador e o separatismo galopante de um século anterior mas que deixaram visíveis marcas relativamente ao desregramento político e moral que carateriza a nossa época. Os comportamentos destruidores e suicidadas que caraterizam o nosso princípio de século levam à ilegitimidade dos governos árabes, dado à sua abordagem vincada no nacionalismo e afastada de uma democracia pluralista e modernista de modelo ocidental. A aceleração da mundialização aumentou a necessidade e a credibilidade de uma ideologia planetária que abalasse as fronteiras e ultrapassasse as pertenças locais, em que ficasse resolvido o dilema das legitimidades perdidas.

Em qualquer sociedade humana a ausência de legitimidade é uma forma de força da gravidade que desregula todos os comportamentos. “Quando nenhuma autoridade, nenhuma instituição, nenhuma personalidade pode fazer-se valer de uma verdadeira credibilidade moral, quando os homens começam a acreditar que o mundo é uma selva onde reina a lei do mais forte e onde todo os golpes são permitidos, só pode derivar-se para a violência, a tirania e o caos.” (Maalouf, 2009, p. 168). Por isso, na era da globalização nenhum desregramento é estritamente local e quando afeta a emoção, a perceção de si e da vida quotidiana de centenas de milhões de pessoas, os seus efeitos são sentidos em toda a extensão do planeta. A instabilidade política do mundo árabe – agitação no Estado Islâmico – e o 11 de Setembro de 2001 ilustram bem esta noção.

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O modelo capitalista aparenta ser o mais social, o menos desigual, o mais atento aos trabalhadores e aos seus representantes, contudo a sua relação com o dinheiro e com a maneira de o ganhar tornou-se obscena. O capital monetário é um fator decisivo no capitalismo, mas que se encontra completamente desligado de toda a produção cultural e artística, de todo o esforço físico ou intelectual, ou seja, de toda a atividade útil. Como se pode então, num ambiente moral, transmitir conhecimentos e ideais? É imperativo preservar um mínimo tecido social que tenha em conta coisas tão essenciais como a liberdade, democracia, felicidade, progresso e civilização.

Quando se fala em crise moral fala-se de “perda de referências” ou de “perda de sentido”, sendo necessário “reencontrar”, mais, de inventar as referências perdidas, as solidariedades esquecidas e as legitimidades desacreditadas. Desta forma, elaborar-se-á uma escala de valores que nos permita gerir, melhor do que fizemos até agora, a nossa diversidade, o nosso ambiente, os nossos recursos, os nossos conhecimentos, os nossos instrumentos, o nosso poder, os nossos equilíbrios, por outras palavras, a nossa vida comum e a nossa capacidade de sobrevivência. “Do meu ponto de vista, sair «por cima» do desregramento que afeta o mundo exige a adoção de uma escola de valores baseada no primado da cultura, direi mesmo baseado na salvação pela cultura.” (Maalouf, 2009, p. 181). O papel da cultura é fornecer aos nossos contemporâneos os instrumentos intelectuais e morais que lhes permitirão sobreviver. Para tal, é preciso encorajar a aprendizagem em todas as idades da vida, estudar línguas, disciplinas artísticas e diversas ciências, como a biologia ou astrofísica. Quanto mais aprofundarmos o conhecimento, menos esgotaremos o planeta. Devemos começar pela literatura, que é onde está a intimidade de um povo. É aí que ele revela as suas paixões, as suas aspirações, os seus sonhos, as suas frustrações, as suas crenças, a sua visão do mundo que o rodeia, a sua perceção de si mesmo e dos outros, inclusive de nós próprios. A cultura e o ensino devem ter um lugar prioritário nas civilizações.

A humanidade deve estar consciente do seu destino comum e reunida em torno dos mesmos valores essenciais, mas continuando a desenvolver, mais do que nunca, as expressões culturais mais diversas, mais expansivas, preservando todas as suas línguas, as suas tradições artísticas, as suas técnicas, a sua sensibilidade, a sua memória, o seu saber. A questão é que a humanidade deve ser uma única civilização humana, mas que se desenvolve através de uma infinita diversidade. Para tal, devemos mostrar-nos audaciosos e imaginativos. É imprescindível agitar as nossas rotinas de pensamento e os nossos hábitos de comportamento, abalar as nossas certezas imaginárias e reconstruir a nossa escala das prioridades.

É necessário agir, sim; e que, mesmo que ainda tenhamos dúvidas, é preciso atuar como se não as tivéssemos.” (Maalouf, 2009, p. 252). Ainda não é tarde demais.

MAALOUF, A., 2009. UM MUNDO SEM REGRAS. LISBOA: DIFEL
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