Isto Não é um Diário, mas podia ser

Isto não é um diário, de Zygmunt Bauman, é uma coletânea de opiniões do autor sobre a vida quotidiana, explorando e comentando os acontecimentos globais, a política, a religião, o ensino, as novas tendências, a sua própria vida e experiências, enfim, a sociedade no seu todo, em constante mutação e crescimento. É um olhar crítico sobre as instituições, o consumo desenfreado e as consequências das novas tecnologias, sustentando pela opinião de outros autores, filósofos e especialistas, clássicos e contemporâneos, que se tornam exemplos para a escrita de cada entrada no diário.

Resultado de imagem para isso não é um diário

Bauman, com uma escrita simples e fundamentada, analisa atentamente jornais, entrevistas, reportagens, programas de televisão, blogs e sites que, de certo modo, revelam um pouco da atualidade que influencia a civilização humana a uma escala global.

O autor alerta para um mundo composto apenas de experimentos, sem teoria para planeá-los nem instruções confiáveis como iniciá-los. É um milénio ou pelo menos um século de incerteza, mas que parece abrir a porta para um novo papel e uma nova estratégia governamentais. No espaço público, é dever do cidadão cuidar do bem comum. A democracia, na sua maior e singular distinção é o serviço prestado à liberdade de todos. “Em particular, numa época como a nossa, de interdependência global, que nos confronta com um desfio sem precedentes: a necessidade de erguer os princípios sacrossantos da coexistência democrática do plano dos Estados-nação – para onde os nossos ancestrais os elevaram e no qual os deixaram para nós – até ao nível da humanidade planetária.” (Bauman, 2012, p.42)

É através da confiança que se sustenta a ordem económica, política e social, e de que na sua ausência essa ordem desaba, torna-se agora a ortodoxa da ciência política – o alicerce do atual discurso da ciência política, já estabelecido, enrijecido e raramente revisitado. É imprescindível as pessoas confiarem entre si e confiarem nas instituições. Existe cada vez mais um caráter ilusório da participação dos cidadãos no processo político. O que se desenvolver foi aquilo a que o autor denomina de política das redes de agor@.

A sociedade humana atual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais. Todos têm o direito de ter raiva, têm a permissão de divulgar a sua raiva nos altifalantes instalados nas praças públicas, sem medo de serem acusados de egoísmo, falta de solidariedade, anarquia e antiamericanismo.

Resultado de imagem para isso não é um diário

As instituições políticas atuais pensam que uma “varinha mágica” irá salvar a economia, destinada a enriquecer os ricos e a empobrecer os pobres. O “multiculturalismo”, ao enfatizar a previsão de uma base intelectual (com mais precisão, de um verniz de relações públicas) para a prática multiculturalista, é em si mesmo um exercício de encobrimento. O que se tenta descobrir é afastar do debate público são as realidades cruas da discriminação e da destituição social.

Levanta-se uma comunidade sustentada e produzida na comunicação mútua e permanente. Uma comunidade de  pessoas que troca ideias ou mantém uma interação intelectual. A palavra conhecimento só é significativa em relação a um pensamento coletivo, integrado na comunicação humana. O propósito único, nobre e grandioso é possibilitar e facilitar a compreensão e o diálogo constante entre os seres humanos. A realidade da multiplicidade de significados e da irreparável ausência de verdades absolutas. É um mundo em que “a única certeza é a certeza da incerteza.” (Bauman, 2012, p.65)

Os jornais de hoje trazem-nos uma rodada de notícias espantosas, horríveis e chocantes. É a guerra ao terrorismo, o próprio terrorismo, uma repetição da história, com medo de que o fim também se repita. Devemos eliminar a violência, de modo de que a que se construa uma nova ordem, em nome do amor pela humanidade.

A conversa e o diálogo, herança da democracia, são os princípios reguladores da toma de decisão político, numa lógica de comunicação distorcida do classicismo. Assiste-se a uma processo progressivo de individualização, acelerado e cada vez mais intenso.

É necessário refletir sobre os problemas que assolam a nossas sociedade, em especial a Europa. Redefinir a ideia de justiça, imparcialidade, equidade, igualdade de padrões de vida e a própria satisfação das nossas necessidades, que se mostram cada vez mais abomináveis padrões de desigualdades que caracterizam a era capitalista.

O respeito é fundamental, assim como a moral e a responsabilidade que devem estar de acordo com a expectativa do próximo. Estabelecer um diálogo, que equivale à interação, confiança e o direito decisivo de dar a última palavra. “O diálogo de boa fé não existe a menos que se aceite e observe a igualdade dos participantes.” (Bauman, 2012, p.97) As relações humanas devem assentar, para além do respeito, no amor ao próximo, para uma melhor convivência humana. É a verdadeira edificação de um Estado Social, sem desigualdade e desregulamentação das oportunidades e direitos fundamentais.

Lentamente, assiste-se a uma evolução cultural, promovida, moldada e dirigida pelos próprios seres humanos, empregando o processo de ensinamento e aprendizagem, em vez de mudar o arranjo dos genes. Esta evolução é notória no nascimentos de redes de relacionamento e de relações virtualmente significativas, despoletadas pelo Facebook e outras redes sociais que mantêm relações num mundo altamente inconstante, em rápido movimento e acelerado processo de mudança.

Resultado de imagem para mundo contemporâneo

Podemos reconstruir, embora virtualmente, o tipo de comunidade que o mundo conhece pessoalmente, em que o meio é a mensagem e a aldeia global se expande e se interligue apenas à distância de um clique e com esperança de um futuro melhor. Temos de viver cada vez mais com maior responsabilidade para evitar e acabar com os problemas sociais patológicos, como as desigualdades, difundindo paz, tolerância, progresso e liberdade democráticas. “A realidade em questão é uma sociedade que só pode resolver (ainda que de modo imperfeito) os problemas por ela criados (conflitos sociais e antagonismos que ameacem a sua própria preservação), reforçando o «apetite por novidades»” (Bauman, 2012, p.137), para mudar a lógica social em vigor em prol de uma boa sociedade. É este desafio que o indispensável Estado de bem-estar social precisa de enfrentar.

A sociedade justa é uma sociedade em permanente vigilância e sensível em todos os casos de injustiça, pronta a agir para corrigir qualquer desigualdade, no alcance de uma justiça perfeita. Com liberdade de expressão, quem diz importa e conta mais do que aquilo que foi dito. O valor da informação é reforçado ou reduzido nem tanto pelo seu conteúdo, mas pelo autoridade do seu autor ou mensageiro.

Atualmente, desencadeou-se um cataclismo profundo de assimetrias, desigualdades e injustiças num mundo global que se esperava melhor, mas que tem caminhado para a ruína, levando por arrasto os valores da liberdade e dignidade. Mas ainda há esperança. O governo e as suas forças de segurança estão com medo do povo. A nova geração da internet é destemida. Eles querem os seus direitos em pleno e querem ter uma vida dignificada. Os jovens são a promessa de um futuro melhor. Têm todas as ferramentas ao dispor para uma mudança irreversível e urgente. A internet, por exemplo, pode ser utilizada para convocar os amantes da democracia até à praça da Libertação, assim como pode chamar os amantes da tirania. A sua neutralidade revela duas faces da moeda que podem ser nocivas e repercutir-se na sociedade.

Algumas pessoas preveem uma catástrofe e outras negam a sua previsão. A construção da ordem e do progresso económico só será possível através da criação, invenção e da produtividade da modernidade em encontrar novas soluções. Assim, “encontrou-se uma solução global para problemas localmente produzidos” (Bauman, 2012, p.207).

Resultado de imagem para atualidade

Devemos submeter-nos às incontroláveis leis da natureza e reforçar a capacidade humana na ação efetiva e na expansão da liberdade de escolha, numa busca mais rápida e eficaz mediada pelas novas tecnologias. Como vivemos numa sociedade confessional, segundo o autor, na qual a manutenção de segredos não nos satisfaz, a comunicação pública deve incidir sobre temas fraturantes, com valor social e que elevem a autoestima dos indivíduos.

A sabedoria na utilização dos novos dos meios deve facilitar a procura pela liberdade e igualmente, devendo-se impor também um diálogo intercultural, de modo a estimular a participação numa humanidade comum.

No desespero pelo mundo, o autor sublinha “O projeto consistia em mostrar o tipo de confusão em que o planeta se havia metido e apontar o caminho a seguir.” (Bauman, 2012, p.245). O mundo inteiro está diante de nós para seguirmos a nossa própria vontade, na medida dos nossos poderes e da nossa imaginação.

Todas estas reflexões, embora estejam em papel, podiam muito bem estar online num blog e ser um sucesso. Não admira, pela capacidade analítica e crítica, que vejam Bauman como um contemporâneo atento e otimista, que gosta de viver a vida, mesmo sabendo dos imensos problemas que assolam o planeta. A opinião de outros autores e jornalistas, como de Steven Poole, corrobora a minha opinião: os seus comentários deviam estar num blog, acessível a todos, alertando para os problemas que desenvolve.

Vivemos num mundo no qual vale a pena viver e pelo qual vale a pena lutar. Só é preciso estar atento e agir.

Vamos tornar o Mundo um lugar melhor?

BAUMAN, Z., 2012. ISTO NÃO É UM DIÁRIO. RIO DE JANEIRO: ZAHAR
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s